domingo, 3 de outubro de 2010

Casa da Gangorra


Na contra capa do belíssimo "Chamada", da Orquestra Armorial, há um texto de Cussy de Almeida onde ele diz que "o atavismo latente no homem do nordeste brasileiro, sempre se projetou em minha personalidade musical quando entro no terreno da criação". Pensando sobre isto, fiz um paralelo com o grande maestro, compositor e violinista potiguar, e concordei com sua afirmação. Na verdade, fui mais além: descobri que este mesmo atavismo me influencia em tudo que faço, no comportamento, nos interesses pessoais, nas relações familiares. E, daí, a grande referência que tenho do sertão e do seu homem, na pessoa do meu amado avô, Afonso David de Menezes. Sempre ouvia seus relatos de acontecimentos vividos no sertão de Itapipoca, inclusive, gravando muitos deles. Homem manso, trabalhador e inteligente, que começou no roçado brabo ainda criança e culminou prosperando comercialmente na sua cidade, vindo embora para Fortaleza, certa altura, para formar todos os seus oito filhos.

E é com imensa felicidade que publico aqui esta pequena homenagem a ele, hoje com 94 anos. Uma xilogravura da sua casa da Gangorra, seu saudoso torrão, que, como muitas propriedades sertanejas, atualmente já não abriga mais a família, sua descendência. Também uma poesia, cujos versos seriam uma declaração do velho à velha casa, acreditando eu ser grande sua vontade de retornar ao lar de muitos anos, edificado por ele próprio, local de nascimento dos primeiros filhos e de partilha dos primeiros anos de casamento com minha querida avó, Aldenora.

Dedico ao grande "Afonsin da Gangorra" o que segue.


Casa da Gangorra
(Para o meu avô Afonso)

Se hoje ninguém mais te quer
Nem mesmo fazer visita,
Não te sintas desprezada
Minha doce Gangorrita,
Pois saiba que em pensamento
Vivo em ti cada momento –
Junta a ti minh’alma habita.

Se te dão ressentimento
As paredes descaiadas,
As telhas desmanteladas
E o velho madeiramento,
Não nutras o sentimento
De se achar não mais querida,
Pois nunca foste esquecida
Deste que te levantou;
Porém, igualmente, estou
Nos dias velhos da vida.

Se não te mando pintar
Novamente a alva cor,
Não é por ser displicente
Mas por me faltar vigor.
Igualmente a ti sofro eu
Por te ter o mesmo amor.

Não liga às trancadas portas
E às janelas encerradas.
Esquece as noites geladas;
Te livra das coisas mortas!
Pensa no que te confortas:
Lembra as crianças correndo,
Vê no alpendre, florescendo,
As gerações que pariste,
Pois que após a noite existe
Sempre um dia amanhecendo.

7 comentários:

Artur Menezes disse...

Ficou excelente!

Nelson Moura disse...

Preciso urgentemente conhecer Sr. Afonso, pois de seus jovens 94 anos deve ter muita estória para contar.
abraços
Mourinha

Lúcia Menezes disse...

Meu filho, desde domingo que eu me sento para escrever um comentário e não consigo...As minhas palavras são pobres para expressar o que sinto diante de tanta beleza, sensibilidade, amor, criatividade...aqui no meu orgulho de mãe, fico vaidosa e quem sou eu, para tamanha vaidade? Sou só sua mãe! Que fica querendo que aí nessa beleza toda tenha algo meu...como sou egoísta! Como é que você de tão longe, menino da cidade grande sabe conhecer tão bem o meu pai? O meu velhinho.
..."Que eu lhe dou essa medalha assim
Como seu avô me deu
Mas a força maior, você sabe
Está em você que nasceu"...Ednardo

Eduardo Macedo disse...

Mãe,

Mesmo sem ter lá vivido
Tenho origem sertaneja
E nunca dei por perdido
Meu passado de peleja,
De chão quente percorrido
De sol, brasa que lateja!

Lúcia Menezes disse...

Meu poeta!
Te amo!
Mãe

ANTONIO LUIZ MACÊDO disse...

GANGORRA QUE SOBE E DESCE
NÃO FICA NO MEIO NÃO,
QUANDO ELA PÁRA PARECE
QUE PÁRA O MEU CORAÇÃO,
E NO VAIVÉM DESTA VIDA
VIRA TRISTEZA INCONTIDA
NO MEIO DA SOLIDÃO.

Riteméia disse...

Amor, como você foi feliz em fazer essa linda homenagem ao seu querido vôzinho. Parabéns. Te amo muito.


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