Sigo trabalhando num novo cordel baseado num conto medieval francês, que, provavelmente, será entitulado de "O embolador que faliu Satanás". Abaixo publico uma prévia do que está em preparação.
O embolador que faliu Satanás
Desde que força se falte
Tudo pode virar vício
Num instante simples hábito
Se transforma em precipício
Mas nem sempre uma mania
Mesmo reles ou vadia
Traz revés e malefício.
Assim deu-se com Batista
Embolador talentoso
Conhecido por ser manso
Bonachão, muito jocoso
Mas andejo e vagabundo
Mais que qualquer um no mundo
Era mole e preguiçoso.
De dia perambulava
Por feiras, festas, calçadas
Pelejando no improviso
Nos cocos, nas emboladas
Divertia o povo inteiro
Cantando com seu pandeiro
As rimas mais debochadas.
De aparência patética
Gordo, feio e desdentado
Em vestes esmolambadas
Trajava, mal-amanhado
Sempre sujo como um cão
Que se espoja pelo chão
Maltrapilho e descalçado.
Muito embora ele apurasse
O bastante pra passar
Sem vergonha ou vexame
Nunca pôde prosperar
Viveu sempre em condição
Semelhante à de ladrão
Que não aprende a roubar.
O caso é que o condenado
O que embolando ganhava
Cada tostão e centavo
De imediato gastava
Jogando cartas, porrinha
Apostando o que não tinha
Com azar que lhe minava.
Para sustentar os vícios
Cantava exclusivamente
Nos bares ele prestava
Seu noturno expediente
Quando acabava o dinheiro
Empenhava seu pandeiro
E, cego, seguia em frente.
Ao trabalho tinha asco
Era o que mais desprezava
Ainda, com muito custo
O pandeiro lhe escapava
Tinha pavor à cultura
Na roça só via agrura
E assim ele versava:
“Se trabalhar fosse bom,
Ao invés de receber,
Pra suar eu pagaria
Procurando me entreter
Deixaria de apostar
De beber, de vadiar
Pra na enxada morrer”.

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