domingo, 24 de maio de 2009

Segunda xilogravura

A xilogravura abaixo, minha segunda, foi feita a partir de mais um taco de imburana vinda do Cariri e traz um violeiro tocando no alpendre da sua casa em companhia de um luar daqueles só existentes no sertão. A fraca luz da lamparina lhe ajuda a encontrar as casas das notas mais traiçoeiras e um mandacarú lhe ouve com grande atenção.


Tive algumas dificuldades com ela, pois as marcas deixadas pela serra na madeira trouxeram irregularidades que ocultaram parte da gravura: as estrelas no negro céu. Não atentei para isto antes de iniciar a gravação, mas a aplicação de um lixamento resolveria o problema. Porém, decidi publicar o resultado da forma como ficou. Esta impressão foi feita na oficina do grande João Pedro do Juazeiro, quando pude contar com sua ajuda sobre como imprimir artesanalmente com colher de pau.

Voltando à gravura, o músico catingueiro, inspirado pelo panorama que o cerca, entoa uma canção chamada "Revoada", que traz a melancolia resultante das situações tão comumente vividas pelo sertanejo: o amor perdido pela retirada, a saudade do retirante, a seca matadora e a tristeza do matuto velho. Ele canta assim:

Revoada

Essa minha voz arranhada
De garrancho de jurema
Canta uma cantiga de estrada
De cancela e de extrema

Do amor que morreu
Na canseira da espera
Distância que esmoreceu
Sentimento de tapera

Essa minha voz arranhada
De garrancho de jurema
Canta uma cantiga de estrada
De cancela e de extrema

Saudades da morada
De quem ficou para trás
Pássaro de asa cortada
No barreiro não vai mais

Essa minha voz arranhada
De garrancho de jurema
Canta uma cantiga de estrada
De cancela e de extrema

De açude que secou
Revelando o morto fundo
Da vida que evaporou
Desengano mais profundo

Essa minha voz arranhada
De garrancho de jurema
Canta uma cantiga de estrada
De cancela e de extrema

Vivência sertaneja
Mocidade, peito são
Que o tempo travou peleja
E levou no arrastão

Essa minha voz calejada
D'alpercata, couro e pó
Canta a cadência arrastada
Do meu peito, amargo nó

"Ah, se eu pudesse
Eu voltava pras Coivara
Baixa das Rêis, Manga Nova
Muçurana, Cemoara
Ia ver minha mãezinha
Pai véi, mano, Ros'Iara
Meu campina, meu golinha
Nas gaiola, pendurada
Pegar na mão da Prazere
E subir na rivuada"

7 comentários:

Artur Menezes disse...

Excelente texto e excelente xilogravura. Parabéns pelo trabalho!

Nelson disse...

Caro Eduardo

É raro ver uma xilogravura, onde o preto predomine de forma tão harmonioza, lembra os quadros da série escura do Goya, onde os personagens saem luminosos, sem no entanto deixar a espectativa do que se guarda no escuro, a espera de uma luz, que só os olhos da imaginação permitem clarear.
No canto do violeiro, embora repleto de vigorosa saudade, me soou como uma afirmação de um passado que fundamenta, o presente e o porvir, uma confissão de quem já sabe, "que de tudo resta um pouco". Obrigado por me fazer sentir um matuto ouvinte, capaz quisá, nesta imagem de noite de verão, de sentir o cheiro da terra, guardando o cio na sua secura, à espera de ser dádiva e criação.

Abraços muitos e parabéns

Nelson

Gereba Corisco disse...

O caba neim qui num quêra
traz no peito essa saudade
é lembrança tamanha e sofrida
cheia de dor e tristeza
qui só quem sente é qui sabe
o peito aperta e num abre
parece que se acaba a vida

Lúcia menezes disse...

Quando começo a escrever
Pra um poeta do sertão
Eu não sei por onde e porquê
Me vem logo inspiração
Canto versos imperfeitos
Mais que sai do coração
Nas duas xilogravuras defeitos
Não vejo não
Vejo muita formusura
De talentosa criação
Coisa de artista grande
Com sombra e escuridão
Me lembrando fotos antigas
Com grande admiração
Que faz roer as feridas
Daquelas fotos queridas
que enfeitam sem intrigas as salas lá do sertão
O violeiro sentado é homem de tradição
E os versos depositados
Com perfeita presição
Só podem deixar uns recados:
Talento, cultura e arte não falta por aqui, não!
Parabéns!

Antonio Luiz Macêdo disse...

É hora de calar.
Basta ouvir o silêncio suave
Do encanto.
O canto emergente do coração,
No coração do sertão.
Contemplar estrelas caídas,
Brilhantes, perdidas,
Colhidas, deixadas
No ventre da lua,
Que é minha, que é tua,
Do céu e do mar.
Depois embalar a memória
Ao som da viola,
(“Não há ó gente, oh! não...”
“Felicidade foi embora...”
“Teresinha de Jesus...”)
E viver o que é,
Sem chorar o que foi.
Então beber do mandacaru
A água escondida das recordações,
Emoções e sentimentos,
E na seqüência dos momentos,
Agradecer.

Fabiano disse...

EDUARDO, É REALMENTE BONITO O SEU TRABALHO. PARABÉNS FABIANO SAMPAIO

RENATA disse...

ADOREI! O SEU TRABALHO É MARAVILHOSO!
PARABÉNS!!!!


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